Quando Antônio Carlos, 54 anos, de Belém, recebeu encaminhamento para neurologista após episódios de tontura e formigamento no braço esquerdo, a estimativa da central de regulação era de oito meses de espera. Ele conseguiu antecipar a consulta em três meses porque um familiar o levou a uma unidade de saúde em outro bairro, onde a fila era menor. "Não é justo depender de sorte para ter atendimento", diz.

A história ilustra uma disparidade estrutural no SUS: a oferta de especialistas médicos varia drasticamente entre regiões. O Vital cruzou dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) com informações de regulação em todos os estados e montou um panorama das cinco regiões brasileiras.

Sudeste: concentração e periferia

O Sudeste concentra 42% dos cardiologistas e 38% dos neurologistas credenciados ao SUS no país — proporcionalmente acima da sua fatia populacional (42% da população brasileira). Mas essa média esconde desigualdades internas.

Na Grande São Paulo, a proporção é de um cardiologista SUS para cada 6.200 habitantes. Em municípios da zona leste da capital, como Itaquera e Guaianases, a fila para consulta regulada ultrapassa 120 dias. Já em bairros da zona sul, com mais hospitais universitários e unidades de referência, o tempo cai para cerca de 60 dias.

Norte: déficit crônico

A região Norte tem a menor densidade de especialistas do país. No Pará, há um neurologista SUS para cada 47 mil habitantes. No Amazonas, a proporção é de um para cada 52 mil. Para comparação, o Distrito Federal tem um neurologista para cada 11 mil habitantes.

"O paciente do interior do Pará que precisa de neurologista ou vai para Belém e espera meses, ou paga particular, ou simplesmente não trata." — médico de família em Marabá, em entrevista ao Vital

Estados do Norte tentam compensar com teleconsulta e com contratos de prestação de serviços com hospitais de outras regiões — o chamado "turismo de consulta", em que o paciente viaja para ser atendido. O modelo funciona para casos pontuais, mas não escala para a demanda cotidiana.

Nordeste: interior vs. capital

No Nordeste, a disparidade é mais visível entre capitais e interior. Salvador e Recife têm oferta razoável de especialistas nas unidades de referência. Já em cidades do sertão baiano ou de Pernambuco, a ausência de profissionais é crônica.

Em Juazeiro, na Bahia, a prefeitura contratou temporariamente dois cardiologistas em 2025 para reduzir a fila — mas o contrato venceu em março de 2026 e a fila voltou a crescer. A secretaria municipal informou ao Vital que busca recursos do Fundo Nacional de Saúde para uma nova contratação.

Sul e Centro-Oeste: situações mistas

O Sul apresenta os melhores indicadores de acesso fora do Sudeste. Santa Catarina e Paraná têm tempos de espera abaixo da média nacional para a maioria das especialidades. O Rio Grande do Sul, porém, enfrenta dificuldades no interior gaúcho, onde a emigração de médicos para capitais e para o setor privado é constante.

No Centro-Oeste, Brasília se destaca positivamente — reflexo da concentração de hospitais universitários e de unidades de saúde do funcionalismo público. Goiás e Mato Grosso têm indicadores intermediários. Mato Grosso do Sul, com fronteira longa e municípios isolados, enfrenta desafios semelhantes aos do Norte em áreas rurais.

O que os gestores tentam

Especialistas em gestão de saúde pública apontam quatro estratégias que têm mostrado algum efeito: provimento de residências médicas no interior, teleconsulta integrada à regulação, contratualização de vagas com a rede privada e programas de fixação de profissionais (como o Mais Médicos e iniciativas estaduais semelhantes).

Nenhuma resolve o problema de forma isolada. A formação de especialistas leva anos; a teleconsulta não substitui exame físico em todos os casos; e a contratualização com o privado depende de orçamento que nem sempre está disponível.

Para Antônio Carlos, de Belém, a consulta com neurologista confirmou que os sintomas estavam ligados a hipertensão mal controlada — condição que poderia ter sido manejada na atenção básica, sem meses de espera. O caso reforça o que gestores e pesquisadores repetem: fortalecer a atenção primária é a forma mais eficiente de reduzir a pressão sobre os especialistas.

Marina Duarte

Jornalista e pesquisadora em saúde coletiva. Doutoranda em saúde pública na Fiocruz. Cobre desigualdades no acesso à saúde e políticas regionais desde 2020.