Na fila do ambulatório do Hospital das Clínicas de Goiânia, Maria José Pereira, 63 anos, espera desde as seis da manhã por uma consulta de retorno com cardiologia. Ela recebeu a guia de regulação em março — três meses depois de a unidade básica de saúde do seu bairro encaminhá-la com suspeita de arritmia. "Disseram que era urgente, mas urgente no papel não é urgente na prática", conta.

A história de Maria José se repete em centenas de municípios brasileiros. O Vital cruzou dados abertos do Sistema de Informação Ambulatorial (SIA-SUS) com informações de centros de regulação em cinco estados e constatou que o tempo médio de espera por consultas com especialistas variou entre 47 dias (Santa Catarina) e 312 dias (Pará) no primeiro trimestre de 2026.

Consultas e exames: filas diferentes

Um erro comum na discussão pública é tratar "fila do SUS" como um bloco único. Na prática, consultas e exames seguem fluxos distintos. Exames de imagem — tomografias e ressonâncias magnéticas, principalmente — apresentaram crescimento mais acuto nas filas em 12 dos 27 estados analisados.

Em Minas Gerais, o tempo médio para uma tomografia de crânio passou de 89 para 134 dias entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026. A secretaria estadual de saúde atribui o aumento à demanda reprimida durante a pandemia e à falta de equipamentos em cidades do interior. Técnicos ouvidos pelo Vital apontam outro fator: a concentração de aparelhos nas capitais, o que obriga pacientes do interior a viajar — e a fila de agendamento inclui essa logística.

"A regulação funciona quando há oferta. Sem vaga, a fila vira lista de espera sem prazo." — coordenador de regulação em Pernambuco, em entrevista ao Vital

O que os números não capturam

Os sistemas de regulação estaduais nem sempre registram casos resolvidos fora do fluxo formal. Pacientes que desistem da espera, que buscam atendimento em outro município ou que pagam consulta particular não aparecem nas estatísticas — mas deixam de ocupar a fila, o que pode distorcer a percepção de melhora.

Em São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde informou que reduziu em 18% o tempo médio de espera para cirurgias eletivas entre 2024 e 2026. Pesquisadores da USP consultados pelo Vital alertam, porém, que parte dessa redução pode refletir mudança na classificação de prioridade, não aumento real de oferta.

Regiões em comparação

O Nordeste concentra cinco dos dez estados com maiores tempos de espera para neurologia e cardiologia. O Sudeste, apesar de ter mais profissionais e equipamentos, enfrenta filas longas nas periferias das grandes capitais — onde a demanda supera a oferta local.

No Amapá, a fila para consulta com endocrinologista chegou a 287 dias em abril. O estado tem menos de 30 endocrinologistas credenciados ao SUS para uma população de 877 mil habitantes. A proporção é de um especialista para cada 29 mil habitantes — contra um para cada 8 mil em São Paulo.

O que muda na prática

Especialistas em gestão pública de saúde ouvidos pelo Vital apontam três frentes que têm mostrado resultados onde foram bem implementadas: integração entre atenção básica e regulação (para evitar encaminhamentos desnecessários), teleconsulta para casos de baixa complexidade e contratualização de vagas com a rede privada em regiões com déficit crônico de profissionais.

Nenhuma dessas medidas resolve o problema sozinha. Maria José, em Goiânia, ainda não tem data para a consulta. Mas em Pelotas, no Rio Grande do Sul, um programa piloto de regulação com teleconsulta reduziu em 34% a fila de dermatologia em seis meses — um dado que a equipe do Vital vai acompanhar nos próximos trimestres.

Camila Rocha

Jornalista de saúde pública. Mestre em políticas de saúde pela UnB. Cobre SUS e regulação desde 2019. Antes trabalhou em redação de jornal de grande circulação em Brasília.