A campanha nacional de vacinação contra a gripe entrou na sexta semana com cobertura de 58,4% no público-alvo — idosos, profissionais de saúde, crianças, gestantes e pessoas com comorbidades. A meta do Ministério da Saúde é 90%. Em maio de 2026, apenas três estados (São Paulo, Paraná e Santa Catarina) ultrapassaram 75%.

O Vital analisou dados do Informe Técnico do Programa Nacional de Imunizações e visitou postos de vacinação em Manaus, Cuiabá e Salvador para entender o que separa os estados que avançam dos que ficam para trás.

Norte e Centro-Oeste: logística e distância

No Acre, a cobertura entre idosos estava em 42% na primeira semana de junho. A secretaria estadual de saúde cita dois obstáculos principais: transporte de doses para municípios do interior, alguns acessíveis apenas por barco ou estrada de terra, e a sazonalidade das chuvas, que interrompe o fluxo regular de entregas.

Em uma aldeia indígena a 180 km de Rio Branco, agentes de saúde relataram ao Vital que a última remessa de vacinas chegou com cinco dias de atraso por causa de um bloqueio na BR-364. As doses foram aplicadas dentro da validade, mas o calendário de visitas ficou desorganizado — e parte da população estava ausente na data prevista.

"A vacina chega, mas o morador foi para a roça. Na semana seguinte, a equipe não volta porque não tem combustível." — agente comunitário de saúde no interior do Amazonas

Capitais: fila e desconfiança

Em bairros periféricos de capitais, o problema é outro. No bairro de Coqueiros, em Salvador, moradores relatam filas de duas a três horas no posto de saúde mais próximo. Muitos desistem antes de serem atendidos. A coordenadora do posto confirmou ao Vital que a equipe de vacinação é a mesma que atende consultas de rotina — e que nos dias de pico a prioridade acaba sendo o atendimento clínico.

A desconfiança em relação a vacinas, ainda alimentada por desinformação em redes sociais, aparece em entrevistas em todas as regiões. Em Goiânia, uma técnica de enfermagem contou que ouve com frequência: "Minha vizinha tomou e passou mal." O Programa Nacional de Imunizações mantém canais de farmacovigilância, mas a percepção de risco individual pesa mais que estatísticas de segurança para parte da população.

Quem está indo bem

São Paulo lidera com 81% de cobertura entre idosos. A secretaria estadual atribui o resultado a uma combinação de busca ativa — equipes que visitam domicílios de idosos cadastrados — e parceria com farmácias credenciadas para aplicação de doses em horários estendidos.

No Paraná, a estratégia de "Dia D" em parques e praças públicas mobilizou 340 mil pessoas em um único fim de semana de maio. Curitiba e Londrina superaram 78%. Municípios menores, porém, ainda operam abaixo de 60% — o que puxa a média estadual para baixo.

Vacinação infantil: alerta separado

Além da gripe, o Vital acompanha a cobertura do calendário infantil — que segue abaixo do recomendado pela OMS em quase todo o país. A tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) está com cobertura de 72% nacional, quando o ideal é 95% para evitar surtos.

Epidemiologistas ouvidos pelo Vital alertam que a queda na vacinação infantil durante e após a pandemia ainda não foi totalmente revertida. Em 2025, o Brasil registrou surtos localizados de sarampo em três estados — todos em áreas com cobertura vacinal abaixo de 80%.

O que vem pela frente

O Ministério da Saúde estendeu a campanha de gripe até 30 de junho. Estados do Norte receberam reforço de 1,2 milhão de doses adicionais em maio. Se a cobertura nacional não ultrapassar 70% até o fim do mês, especialistas preveem pressão sobre leitos de UTI no segundo semestre — período em que a gripe costuma circular com mais intensidade no Sul e Sudeste.

Para quem ainda não se vacinou, a orientação das autoridades de saúde é simples: procure o posto mais próximo com documento de identidade. A vacina é gratuita e não exige agendamento na maioria das unidades. O Vital vai atualizar esta reportagem conforme novos dados forem publicados.

Rafael Lima

Repórter especializado em prevenção e imunização. Formado em jornalismo pela UFRJ. Cobre campanhas vacinais e políticas de saúde pública desde 2021.